Imagine A cidade grande. Aquela cidade grande, vista de cima e de longe, vista em ¾ de longe, assim meio inclinada. Duas horas da tarde, centrão. Bem no meio da cidade, dá pra ver e, pior, dá pra sentir o mormaço. Todo mundo acabou de voltar do almoço. Agora, chegando já bem no meio do inferno, tem aquele prédio de escritórios. Alto. Dentro do prédio tem gente, que acabou de voltar do almoço e acabou de voltar para a faina.
Dentro do prédio tem também o Souza. Bolacha pros amigos. O Souza passou 17 anos trabalhando pra corporação, começou no meio dos escritórios comuns, como todo mundo e depois de muita dedicação e esforço tinha alcançado seu posto com direito à sala privativa, trabalho extra e menos folgas. Estava no novo posto havia uns 3 meses. Desde que se sentara na cadeira nova (mas nem tão nova assim) começara a pensar um pouco, e lhe doía a cabeça das primeiras vezes, não porque não pensava antes, mas porque no que pensava lhe dava um certo incômodo. Sentia por vezes como se alguém pudesse ler seus pensamentos, o que lhe causava uma estranha vergonha de vez em quando. E na verdade era mais um sentimento que o incomodava do que propriamente um pensamento. Mesmo assim, o incomodava.
Passado o primeiro mês de incômodo agora achava que sabia o que o perturbava e não se sentia mais chateado por não saber o que o deixava incomodado. Agora apenas se sentia intrigado: se sentia perturbado porque um dia acordara sentindo que sua vida havia passado muito rápido, que seus sonhos tinham virado lembranças sobre o futuro e que boa parte do que via agora ter desperdiçado em juventude e vitalidade, e perdido em futuro e potencial havia sido investido ou sugado pela corporação. Onde estava o velho Bolacha? Quando jovem pensava em ser músico ou cientista, sonhava acordado, pensava na humanidade e na condição humana e outras bobagens. Queria ler e ouvir e saber e ver e ser e sentir. Agora não era nada do que um dia sonhara em ser. Tomou cedo na vida adulta um caminho que o jogara ali e só agora parecia se dar conta do que fizera da vida. O que queria ter feito e o que fez, um contraste terrível. Se sentia sujo e ultrajado, mas escondia isso para si mesmo, não deixava que ninguém soubesse de seu rude despertar.
Passava os dias em meditações e devaneios agora. Pensava no que faria se... o que leria se... o que ouviria se... o que seria se... .Quando o supervisor do andar, o Carlos, vinha verificar o andamento do serviço, quando lhe jogavam em cima trabalho indevido, quando enchia o saco em geral, o Souza se recolhia pro seu mundo particular, dentro da cabeça, onde ele tirava uma folga quando queria. Ali nada nem ninguém o incomodava e ele podia ser o que quisesse, quando quisesse. Experimentava agora uma liberdade que era tão real quanto a satisfação que havia encontrado no trabalho nos anos passados.
Um dia chegou no trabalho, sentou e se pôs a trabalhar. Tinha um pouco menos de trabalho naquela manhã que em geral e se sentia particularmente contente com sua pequena revolução interior. Por um momento parou de trabalhar, levantou, olhou orgulhoso pela janela da sala para o mundo lá fora, voltou para a mesa após alguns minutos de contemplação e se recostou na mesa e sentiu duas pontadas nas costas. Duas dores agudas, gêmeas, simétricas, nas costas. Percebeu logo não ser nada interno, pensou a princípio que tinha encostado em duas agulhas, mas também não era isso. Esticou o braço o mais que pôde para sentir o tinha nas costas e tocou, dos dois lados, uma pequena protuberância esquisita que atravessara a parte de trás de sua camisa, protuberâncias que pareciam serem feitas de um material estranho, mas de qualquer forma nos seus 40 anos de vida não lembrava de ter nada parecido, então foi até o pequeno espelho que mantinha na sala e procurou ver o que tinha nas costas, ora essa! Quando chegou ao espelho e se esforçou ao máximo para ver a protuberância esta parecia ter crescido um pouco e ao tocá-las pareciam já bem maiores, com uma textura mais definida agora.
A incredulidade inicial deu lugar ao pânico e depois ao júbilo. Asas! Asas, estavam crescendo asas! Menos de uma hora depois de notar as protuberâncias o velho Bolacha possuía um par de belíssimas asas brancas que iam desde a base do ombro, envergavam no ar e quase tocavam o chão. Souza aprendeu lentamente a mexê-las e logo conseguia batê-las e sair um pouco do chão, mas fazendo um som alto e forte de asas poderosas. E se alguém entrasse e o visse assim? Ao pensar nisso foi andando para trás inconscientemente até que suas asas tocaram a janela, a grande janela de dois metros de altura por três de largura. Virou-se e a preocupação de ser pego desapareceu completamente sobrepujada pelo peso súbito da ousadia. Olhou para o mundo lá fora e se sentiu parte dele e único e livre. Abriu a janela, uma lufada de ar quente atingiu o rosto do Souza, que apoiado no peitoril enchia os pulmões de liberdade. Subiu no parapeito e se preparou para tomar impulso, abrindo as asas e deixando o vento preenchê-las.
Quando estava quase pulando a porta abriu de supetão e o Carlos entrou na sala. Ao ver o supervisor o Souza se assustou e caiu de volta pra dentro. Carlos disse então, com um ar reprovador:
- Ei, ei, ei! Que que o senhor pensa que está fazendo?
- Eu...eu ia, ia voar...acho.
- Ah ia né? Ia voar? Com todo esse serviço, mas sim, ia voar por que não?
- Foi mal...
- Desce já daí, cretino
- Foi mal...
- Desce, que coisa.
- Eu achei que não ia fazer, achei que podia fazer até bem pra mim sabe?
- E eu com isso? E nós com isso? Não tá fazendo o trabalho direito? Não ta tudo certinho, pra que complicar hein? Nada disse, desce daí.
Souza desceu com um ar de resignado. Carlos pegou um rádio da cintura e chamou a segurança, que chegou prontamente. Sem nem tentar reagir, Souza foi agarrado pelos quatro seguranças, dominado e virado, ficando de barriga para o chão. Dois guardas ficaram à porta impedindo o acesso dos outros funcionários. Carlos, usando de um tesoura especial começou a podar as asas, belas, longas brancas asas do anjo-Souza. Cortou-as na base, deixando apenas um toquinho do que um dia foram as protuberâncias, imperceptíveis. O choque e a dor fizeram Souza desmaiar. Foi levado inconsciente para casa.
Ao chegar no trabalho no outro dia de manhã o ex-anjo-Souza não tem lembranças de suas asas brancas, belas e longas. Apenas se sente incomodado por estar levemente atrasado. Sentou na mesa e suas perturbações de reduziam a murmúrios no fundo da mente. Não possuía mais seu reino particular dentro da mente, seu refugio sagrado. Agora voltara a ser um funcionário eficiente e não-alado da corporação. Apenas de vez em quando suas preocupações ameaçavam ser maiores que seu trabalho imediato e logo eram destruídas pela próxima pilha de serviço colocada à sua frente...
Naquele dia especialmente quente e particularmente comum Carlos não apareceu no andar de manhã, tinha ido para o subsolo tratar de um negócio urgentíssimo dizia-se. Lá no 5º subsolo Carlos acabava de entregar seu pacote urgente e subia para falar com a diretoria sobre a encomenda que deixara naquele setor secreto e especial. No tal setor secreto e especial um homem abria o pacote, onde se lia em letras grandes e vermelhas: CUIDADO! CONTAGIOSO! MANUSEIE COM CUIDADO. O par de asas belas, brancas e longas foi retirado do pacote com a ajuda de luvas, discriminado e colocado numa caixa especial que foi levada ao forno especial. O processo foi arquivado numa pasta com o nome Souza, Carlos Alberto Ferreira. As cinzas eram levadas junto com o resto do lixo diário dos escritórios dos andares acima. O Bolacha nunca mais voou.