Friday, July 21, 2006

Brechas no Edital

De novo! Que merda! Demorei pra pegar o ritmo da parada e esses filho-da-puta resolvem quebrar parede agora. Isso é coisa de brasileiro... nunca que na Europa ia rolar um negócio desse. Assim é foda de concentrar.
(...)
A prova já é domingo que vem? Ah, só falta Direito Administrativo. Tá de boa então. Mas sei lá. Deve ter neguinho estudando há dois anos pra essa merda.
(...)
Putz, será que é gripe? Deve ser só uma rinitezinha... não posso ficar gripado não.
(...)
Não tá rendendo. Boto fé que se eu for lá fora tomar um arzinho... mas aí depois eu vou desanimar... melhor não. É só tomar um cafezinho.
(...)
Puta-que-pariu! Enfia esse seu celular no seu cu! Assim não dá...
(...)
Com certeza não vai cair isso não. As prova do Cespe nunca tem questão assim.
(...)
Caralho, a Juliana é gostosa demais... Ela ainda ta namorando aquele mané?
(...)
Será que já soltaram o edital do BRB? Deve sair por agora...
(...)
Bem que podiam botar papel nesse banheiro, né? Universidade pública é assim... depois neguinho fica xaropando quando o governo quer privatizar...
(...)
Será que é o meu? Ah, não vou lá não. Nem deve ser... botei o carro pertinho... nem tem perigo.
(...)
Já?! Sábado fecha cedo demais. Pô, tinha altas coisa pra estudar...
(...)
Nem rola de estudar domingo...

Thursday, April 06, 2006

Crônica

A primeira vez que me chamaram de gostosa na rua eu tinha 11 anos. Ainda não tinha menstruado, nem beijado na boca, mal havia começado a usar um daqueles sutiãs-top esportivos, e ainda sonhava com o príncipe encantado e seu cavalo branco.

Eu estava bem perto de casa, sozinha, indo à locadora mais próxima devolver uns filmes. Usava uma calça jeans, tênis e uma camiseta bem longa e larga, com um desenho do Piu-piu e do Frajola, algo bem comportado, obviamente: às vezes, dependendo do que usamos, a culpa é nossa, não é isso o que dizem? Ele cruzava a calçada com uma maleta na mão, devia estar indo para o trabalho, voltando do intervalo do almoço. Disse, bem gostosinha, hein? e um sorriso malicioso. Tentei fingir que não vi e virei a cara e, segurando as lágrimas, apressei o passo e cheguei quase correndo na locadora.

Na minha cabeça todas as piores coisas aconteceram. Morri de medo de ser perseguida e estuprada. E já estava pensando que ia ficar tão machucada e traumatizada, que, mesmo após anos de terapia, eu acabaria me matando de tanta amargura, desgosto e infelicidade.

À parte o exagero, demorei ainda alguns meses para perceber, com a experiência, que nem todos os homens que berram insultos na rua são estupradores em potencial. Talvez porque a violência verbal me assustasse já um tanto. Como se entre ela e a violência, de fato, física tivesse só uma linha bem tênue.

Hoje os gostosa, princesa, assobios e gemidos em geral são quase imperceptíveis. Ignorados solenemente como barulhos de carros, de britadeiras, construções, e música ruim muito alta.

Aquilo foi em 1998. Já passamos do início do XXI. E eu ainda não ando sozinha na rua.

Thursday, February 16, 2006

Rimas.....

Só.
Pare vida!
Só um minuto...
Deixe que ecoem os sinos!
Cale profetas e sábios!
E que o tempo, ao se ver descontínuo,
congele o sorriso nos lábios
de quem esqueceu dos sorrisos.

Que idiota no fundo do quarto!
Chorando seu grave delito
de sonhar um lábio, um carinho.
Abafa o estúpido grito!
Estabelece o que for necessário!
Mergulhe no nada infinito!
Esbanje um sorriso falsário
que esconda o que o deixa aflito!

Pare só esse segundo!
Revele a tristeza dos céticos,
esqueça os desastres proféticos,
lembre um pouco a alegria do mundo.

Ela sorri para o nada,
para promessa fadada,
para o fracasso ridículo.
Também está no canto da sala,
aquela que nada mais fala,
escondendo seu triste conflito.

O amor é uma estátua de gelo,
e só em um poema singelo,
a tristeza é um raio de sol.
E o idiota observa o monumento
e busca, cego, qualquer salvamento,
como um inseto na luz do farol.

E o amor do idiota já quase morre,
e bebe as mágoas em um triste porre
de frases feitas, açúcar e limão.
Afoga o pouco amor que lhe resta,
sem álcool ou cerimônia funesta,
e espalha as mágoas no chão.

Por isso pare vida!
Só um instante!
Cale as musas e as cartomantes.
Deixe a estátua existir com o calor
e a tristeza existir com o amor,
e o idiota existir como antes.
Pare o segundo por alguns segundos!
Abata os seres em sonos profundos
e faça dos verbos sonetos galantes.


Deixe o idiota vê-la,
a sós, com música, em uma novela
que trace milagres em fins de capítulo.
E que o beijo seja eterno como o nada,
certo como um jogo de carta marcada,
e que tempo contínuo trafegue em círculo.

Pare tempo por pouco tempo!
Só por um segundo lento
exista apenas por um triz.
Interrompa o movimento,
deixe em paz o sentimento,
deixe o homem ser feliz...

Monday, February 06, 2006

Ganhei!

Alô, alô, atenção, pessoal!

Me desculpem sair um pouquinho da proposta aqui, mas eu precisava partilhar este momento com vocês! Até porque ainda estou falando de literatura!

Visitem:
http://www.prof2000.pt/users/lmop/
apnljfc/home/2005/relacao_premiados_2Edicao_Brasil_2005.pdf
(o endereço são as duas linhas. Coloquei uma quebra de linha pra não alterar a formatação do blog)

Olhem o Escalão B - Prosa... eu ganhei a 1ª Menção Honrosa!

Sunday, January 29, 2006

Souza

Imagine A cidade grande. Aquela cidade grande, vista de cima e de longe, vista em ¾ de longe, assim meio inclinada. Duas horas da tarde, centrão. Bem no meio da cidade, dá pra ver e, pior, dá pra sentir o mormaço. Todo mundo acabou de voltar do almoço. Agora, chegando já bem no meio do inferno, tem aquele prédio de escritórios. Alto. Dentro do prédio tem gente, que acabou de voltar do almoço e acabou de voltar para a faina.

Dentro do prédio tem também o Souza. Bolacha pros amigos. O Souza passou 17 anos trabalhando pra corporação, começou no meio dos escritórios comuns, como todo mundo e depois de muita dedicação e esforço tinha alcançado seu posto com direito à sala privativa, trabalho extra e menos folgas. Estava no novo posto havia uns 3 meses. Desde que se sentara na cadeira nova (mas nem tão nova assim) começara a pensar um pouco, e lhe doía a cabeça das primeiras vezes, não porque não pensava antes, mas porque no que pensava lhe dava um certo incômodo. Sentia por vezes como se alguém pudesse ler seus pensamentos, o que lhe causava uma estranha vergonha de vez em quando. E na verdade era mais um sentimento que o incomodava do que propriamente um pensamento. Mesmo assim, o incomodava.

Passado o primeiro mês de incômodo agora achava que sabia o que o perturbava e não se sentia mais chateado por não saber o que o deixava incomodado. Agora apenas se sentia intrigado: se sentia perturbado porque um dia acordara sentindo que sua vida havia passado muito rápido, que seus sonhos tinham virado lembranças sobre o futuro e que boa parte do que via agora ter desperdiçado em juventude e vitalidade, e perdido em futuro e potencial havia sido investido ou sugado pela corporação. Onde estava o velho Bolacha? Quando jovem pensava em ser músico ou cientista, sonhava acordado, pensava na humanidade e na condição humana e outras bobagens. Queria ler e ouvir e saber e ver e ser e sentir. Agora não era nada do que um dia sonhara em ser. Tomou cedo na vida adulta um caminho que o jogara ali e só agora parecia se dar conta do que fizera da vida. O que queria ter feito e o que fez, um contraste terrível. Se sentia sujo e ultrajado, mas escondia isso para si mesmo, não deixava que ninguém soubesse de seu rude despertar.

Passava os dias em meditações e devaneios agora. Pensava no que faria se... o que leria se... o que ouviria se... o que seria se... .Quando o supervisor do andar, o Carlos, vinha verificar o andamento do serviço, quando lhe jogavam em cima trabalho indevido, quando enchia o saco em geral, o Souza se recolhia pro seu mundo particular, dentro da cabeça, onde ele tirava uma folga quando queria. Ali nada nem ninguém o incomodava e ele podia ser o que quisesse, quando quisesse. Experimentava agora uma liberdade que era tão real quanto a satisfação que havia encontrado no trabalho nos anos passados.

Um dia chegou no trabalho, sentou e se pôs a trabalhar. Tinha um pouco menos de trabalho naquela manhã que em geral e se sentia particularmente contente com sua pequena revolução interior. Por um momento parou de trabalhar, levantou, olhou orgulhoso pela janela da sala para o mundo lá fora, voltou para a mesa após alguns minutos de contemplação e se recostou na mesa e sentiu duas pontadas nas costas. Duas dores agudas, gêmeas, simétricas, nas costas. Percebeu logo não ser nada interno, pensou a princípio que tinha encostado em duas agulhas, mas também não era isso. Esticou o braço o mais que pôde para sentir o tinha nas costas e tocou, dos dois lados, uma pequena protuberância esquisita que atravessara a parte de trás de sua camisa, protuberâncias que pareciam serem feitas de um material estranho, mas de qualquer forma nos seus 40 anos de vida não lembrava de ter nada parecido, então foi até o pequeno espelho que mantinha na sala e procurou ver o que tinha nas costas, ora essa! Quando chegou ao espelho e se esforçou ao máximo para ver a protuberância esta parecia ter crescido um pouco e ao tocá-las pareciam já bem maiores, com uma textura mais definida agora.

A incredulidade inicial deu lugar ao pânico e depois ao júbilo. Asas! Asas, estavam crescendo asas! Menos de uma hora depois de notar as protuberâncias o velho Bolacha possuía um par de belíssimas asas brancas que iam desde a base do ombro, envergavam no ar e quase tocavam o chão. Souza aprendeu lentamente a mexê-las e logo conseguia batê-las e sair um pouco do chão, mas fazendo um som alto e forte de asas poderosas. E se alguém entrasse e o visse assim? Ao pensar nisso foi andando para trás inconscientemente até que suas asas tocaram a janela, a grande janela de dois metros de altura por três de largura. Virou-se e a preocupação de ser pego desapareceu completamente sobrepujada pelo peso súbito da ousadia. Olhou para o mundo lá fora e se sentiu parte dele e único e livre. Abriu a janela, uma lufada de ar quente atingiu o rosto do Souza, que apoiado no peitoril enchia os pulmões de liberdade. Subiu no parapeito e se preparou para tomar impulso, abrindo as asas e deixando o vento preenchê-las.

Quando estava quase pulando a porta abriu de supetão e o Carlos entrou na sala. Ao ver o supervisor o Souza se assustou e caiu de volta pra dentro. Carlos disse então, com um ar reprovador:

- Ei, ei, ei! Que que o senhor pensa que está fazendo?
- Eu...eu ia, ia voar...acho.
- Ah ia né? Ia voar? Com todo esse serviço, mas sim, ia voar por que não?
- Foi mal...
- Desce já daí, cretino
- Foi mal...
- Desce, que coisa.
- Eu achei que não ia fazer, achei que podia fazer até bem pra mim sabe?
- E eu com isso? E nós com isso? Não tá fazendo o trabalho direito? Não ta tudo certinho, pra que complicar hein? Nada disse, desce daí.

Souza desceu com um ar de resignado. Carlos pegou um rádio da cintura e chamou a segurança, que chegou prontamente. Sem nem tentar reagir, Souza foi agarrado pelos quatro seguranças, dominado e virado, ficando de barriga para o chão. Dois guardas ficaram à porta impedindo o acesso dos outros funcionários. Carlos, usando de um tesoura especial começou a podar as asas, belas, longas brancas asas do anjo-Souza. Cortou-as na base, deixando apenas um toquinho do que um dia foram as protuberâncias, imperceptíveis. O choque e a dor fizeram Souza desmaiar. Foi levado inconsciente para casa.

Ao chegar no trabalho no outro dia de manhã o ex-anjo-Souza não tem lembranças de suas asas brancas, belas e longas. Apenas se sente incomodado por estar levemente atrasado. Sentou na mesa e suas perturbações de reduziam a murmúrios no fundo da mente. Não possuía mais seu reino particular dentro da mente, seu refugio sagrado. Agora voltara a ser um funcionário eficiente e não-alado da corporação. Apenas de vez em quando suas preocupações ameaçavam ser maiores que seu trabalho imediato e logo eram destruídas pela próxima pilha de serviço colocada à sua frente...

Naquele dia especialmente quente e particularmente comum Carlos não apareceu no andar de manhã, tinha ido para o subsolo tratar de um negócio urgentíssimo dizia-se. Lá no 5º subsolo Carlos acabava de entregar seu pacote urgente e subia para falar com a diretoria sobre a encomenda que deixara naquele setor secreto e especial. No tal setor secreto e especial um homem abria o pacote, onde se lia em letras grandes e vermelhas: CUIDADO! CONTAGIOSO! MANUSEIE COM CUIDADO. O par de asas belas, brancas e longas foi retirado do pacote com a ajuda de luvas, discriminado e colocado numa caixa especial que foi levada ao forno especial. O processo foi arquivado numa pasta com o nome Souza, Carlos Alberto Ferreira. As cinzas eram levadas junto com o resto do lixo diário dos escritórios dos andares acima. O Bolacha nunca mais voou.

Monday, January 23, 2006

Tudo no fim

mergulhou as longas unhas na pele da palma da mão e suspirou para que tudo aquilo terminasse logo. centrou seus olhos para as irregularidades do teto, com o corpo disperso por aquele chão movimentado. expirou seus pensamentos para quem transcendesse ouvi-lo, repetindo com força que no fim tudo se fode. tudo se fode. tudo. se fode. fode. no fim. no fim, ninguém o percebeu. e viveu com os olhos lá em cima. e jubilou alto que quem quiser que me queira, me acompanhe. me una me junte me. a mim. a nós. porque tenho medo de ter individualidade, por isso inspiro me quebrar em alguém. em ti. me seja e então sejamos. sem crer. sem ter. mas não se perca que no fim tudo se fode. tudo no fim.

Friday, January 20, 2006

Um texto insano e insone...........a foto.

xxxxxxClaudionor estava atrasado para o trabalho, havia perdido a noite passada pensando no rumo que tomaria sua vida. O barulho do despertador mutilou seus pensamentos como uma navalha, ele precisava se aprontar, o rumo de sua vida agora era a empresa de calçados, sentou-se na cama, desligou o despertador, vestiu o uniforme barato, beijou sua mulher, tomou café, saiu de casa. Cada quarteirão parecia infinito para um fumante inveterado e já não tão jovem, cada metro do caminho era uma possibilidade, cada minuto era importante, o cigarro já havia perdido a graça, o caminhar corriqueiro havia ficado banal, avistou a entrada do metrô, desceu suas precárias escadas, entrou no imponente veículo, atravessou duas estações, ouviu uma explosão, sentiu algo cair sobre seu corpo, morreu.
xxxxxxArlete estava atrasada para o trabalho, havia perdido a noite pensando no marido acordado e indiferente ao seu lado. O barulho do despertador mutilou seus pensamentos como uma navalha, ela precisava se aprontar, devia pensar na manutenção de seu emprego como empregada, sentou-se na cama, ouviu o marido desligar o despertador, trocou de roupa, beijou seu companheiro, tomou café, saiu de casa. Cada quarteirão parecia infinito para uma mulher carente inveterada e já não tão jovem, cada metro do caminho era um metro longe do marido, cada minuto era um minuto sem ele, o sexo já havia perdido a graça, o caminhar corriqueiro até o trabalho ficado banal, avistou a casa, tocou o interfone, entrou, trabalhou duas horas, assistiu o jornal, explosão no metrô, ficou preocupada, pediu licença, saiu do trabalho.
xxxxxxMacedo estava atrasado para o trabalho, havia perdido a noite pensando em como manter seu emprego. O barulho do despertador mutilou seus pensamentos como uma navalha, ele precisava de um milagre para se reabilitar, sentou-se na cama, desligou o despertador, trocou de roupa, tomou café, pegou a câmera, saiu de casa, os quarteirões passavam rápido, o tempo era curto para um jovem atrasado, a cada metro do caminho temia mais a repreensão de seu superior, a independência financeira havia perdido a graça, o caminhar corriqueiro era doloroso, passou pela entrada do metrô, ouviu uma explosão, tirou fotos, ficou rico.
xxxxxxArlete saiu alucinada em busca de notícias de seu marido, nada conseguiu, foi dormir, Claudionor não dormiu em casa, Arlete preocupada, ligou a tv pela manhã, viu a foto do marido soterrado, chorou, foi para a rua, parou na banca de revistas, na capa do jornal viu a foto de seu marido soterrado, chorou, foi a até o IML, identificou o corpo, o enterrou no dia seguinte, chorou, segunda-feira, olhou as revistas na banca, todas tinham a mesma foto na capa, chorou, terça feira, caminhou os intermináveis quarteirões, viu em um outdoor a foto de seu marido soterrado com as inscrições “revista Olhar: a matéria certa, na hora certa”, chorou, assistiu o programa de auditório, chorou, mudou de canal, chorou, foi ao cinema, chorou, foi ao teatro, chorou, foi ao ponto de ônibus, chorou, chorou durante meses e ainda chora esporadicamente em programas jornalísticos.
xxxxxxMacedo chegou no Jornal com as fotos do desastre, vendeu para todos os meios de comunicação, viu a capa do jornal com sua foto, sorriu, foi promovido, sorriu, segunda-feira, revistas na banca, todas tinham a mesma foto na capa, sorriu, terça-feira, foto no outdoor, sorriu, escreveu um “best-seller”: “homenagem aos acidentados”, vendeu os direitos para o teatro e cinema, sorriu, sorriu durante meses, gastou seu dinheiro, mas ainda assim, hoje em dia, sorri esporadicamente em programas jornalísticos.